Surgem cerca de 300 casos de câncer de colo de útero por ano no DF

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Exames regulares e imunização de meninas contra o HPV são medidas essenciais

O câncer do colo do útero é o terceiro mais comum em mulheres na capital federal, fica atrás apenas do da mama e do intestino grosso. Por ano, são 300 novos casos e uma média de 90 mortes, segundo estatísticas da Secretaria de Saúde. Pesquisa inédita do Instituto Datafolha, encomendada pelo laboratório Roche, mostra que 70% das 208 mulheres que participaram do levantamento disseram fazer o exame de papanicolau — sendo que 46% recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS). Desse total, 22% se submetem ao teste, preventivo da doença, apenas quando há uma recomendação médica. Outras 9% das entrevistadas realizam somente quando sentem algum sintoma diferente. Para especialistas, é essencial fomentar a prevenção e o tratamento precoce.

Além da vacina contra o papilomavírus humano (HPV), o cuidado contra esse tipo de câncer continua a envolver o exame papanicolau. Ele identifica possíveis lesões precursoras do câncer, que, se tratadas precocemente, evitam o desenvolvimento da doença. A empresária Joelma Figueiredo dos Santos Torres, 47 anos, sabe da importância do diagnóstico precoce. Em 2011, a moradora de Taguatinga, identificou um pré-câncer e passou por uma cirurgia. Este ano, ela teve um sangramento e descobriu que estava com câncer de colo do útero em estágio avançado, com metástase na vagina, no reto e na bexiga. “Meu jeito de conduzir o tratamento é não falando sobre a doença. Não parei minha vida por causa disso”, conta.

Joelma realizou 11 aplicações de quimioterapia na primeira parte do tratamento. Atualmente, ela está na nona sessão do segundo ciclo. No início, teve diminuição de 80% do câncer e curou a lesão externa. Entretanto, houve aumento na ferida interna do útero. “Abriu uma fístula na bexiga e tive dificuldades para conter a urina, mas não deixei de viajar e de trabalhar”, detalha.

Daniele Assad, oncologista do Hospital Sírio-libanês, explica que a expectativa de cura é ligada ao estágio da doença quando é detectada. “Nos últimos cinco anos, o rastreamento está mais ativo. Mas, ainda assim, é insuficiente. A cobertura não está adequada. Esse serviço é muito importante porque descobrimos a doença num estágio que ainda não se formou o câncer, apenas a infecção das células”, esclarece.

Ao todo, 7% das mulheres que tiveram câncer do colo do útero desenvolveram doenças psicoemocionais. Acompanhado do diagnóstico vem o abandono. Larissa Bezerra da Silva é pedagoga da Rede Feminina de Combate ao Câncer e acompanha o tratamento de cerca de 400 mulheres no Hospital de Base (HBDF). “As pacientes precisam de acolhimento. Passar pela doença as deixam muito abaladas. Elas se sentem sozinhas e acham que o tratamento não vai dar certo”, conta

Larissa ressalta que há um índice grande de maridos que largam as mulheres quando descobrem a doença. “O câncer de útero é agressivo e muito doloroso. Algumas perdem sua identidade como mulher e sofrem dilemas com relações sexuais. Os esposos vão embora. Não é uma característica apenas dos menos abastados. Isso ocorre, sobretudo, nas classes mais altas”, completa.

Vacinação

O papilomavírus humano (HPV) é a principal causa do câncer de colo do útero. Para garantir a eficácia da vacina, são necessárias três doses. A meta da Secretaria de Saúde é imunizar 80% do público-alvo — cerca de 21 mil garotas de 9 a 13 anos. Em 2015, foram aplicadas 15.218 doses da vacina, sendo em 8.343 dos casos para as crianças de 9 anos — o número representa 36,2% das meninas dessa faixa.

Atualmente, existem mais de 100 tipos de HPV, alguns deles causadores de câncer, principalmente no colo do útero e no ânus. Não se conhece o tempo em que o HPV pode permanecer sem sintomas e quais são os fatores responsáveis pelo desenvolvimento de lesões. Na pesquisa, 27% dos entrevistas do DF disseram não conhecer a vacina contra o microrganismo.

O Ministério da Saúde estuda a ampliação do público-alvo para a vacinação contra o HPV. Hoje, meninas de 9 a 13 anos e mulheres com HIV até os 26 anos são vacinadas na rede pública. O grupo de trabalho, que reúne técnicos do ministério, representantes de sociedades médicas e pesquisadores, define até o fim do ano quem serão os próximos beneficiários. A equipe revisará resultados de estudos sobre o impacto da vacinação em meninos, homens com HIV e pacientes imunodeprimidos. Em 2013, o Distrito Federal foi pioneiro na aplicação da vacina para crianças de 11 a 13 anos.

Cláudio Ferrari, integrante da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBO), acredita que a intenção do governo deve ser “erradicar” a doença. “Temos que apostar na vacinação. A vacina é capaz de impedir a infecção do HPV, com eficácia de 95%”, explica (leia Três perguntas para). A contaminação da mulher acontece quando o material genético do vírus é incorporado ao tecido do colo uterino para desenvolver o câncer.

Fonte: CB