O Brasil está cansado

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 “O cidadão brasileiro está cansado da ineficiência de todos nós.”

A frase é da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), dita, na última sexta-feira, em visita ao estado de Goiás. Ela tem razão. “Por mais que tentemos, e tenho certeza de que estamos tentando, temos sempre um débito enorme com a sociedade”, completou. A dura fala da ministra reflete a fragilidade em que se encontram as instituições no país, depois de terem suas estruturas abaladas por mais de três anos de crise política e econômica.

As mais de 40 fases da Operação Lava-Jato e as investigações que dela derivaram ou que com ela concorreram — em vulto de escândalo ou volume financeiro — expuseram níveis diversos de relações espúrias entre o capital e o poder público. Dissecados, os esquemas mostraram ao eleitor as negociatas envolvendo campanhas e legislaturas virtualmente patrocinadas pelo voto livre, dever e direito maior do cidadão.

As irregularidades vieram — e ainda vêm — à tona como uma sequência de abalos sísmicos. Executivo, Legislativo e Judiciário se esforçam para manter de pé sua credibilidade e garantir que o país permaneça nos trilhos. A realidade, no entanto, é que os poderes não têm sido capazes sequer de manter agendas fundamentais, visto que a enxurrada de denúncias, indiciamentos, prisões e processos comprometeram o andamento dos trabalhos em geral.

Paralelamente, a crise financeira dos estados, além de comprometer os salários do funcionalismo, prejudica o acesso à saúde e à educação e torna cada vez mais agudas as questões relacionadas à segurança pública, fazendo a violência explodir nas ruas e nos presídios.

Dois mil e dezoito começa com todas as fragilidades que um ano eleitoral deveria temer. Poderes ‘travados’, governabilidade fragilizada, empresas asfixiadas pela profundidade e duração da crise, desconfiança generalizada e incertezas de todos os tipos. Os sinais de recuperação econômica ainda são sutis para inspirar alívio e o eleitor, como bem disse Cármen Lúcia, “está cansado”.

Ao Judiciário, no fim de contas, coube desempenhar o papel de último bastião da ordem e da democracia. Infelizmente, a força de seus pilares foi insuficiente para conter os danos do derretimento ao seu redor. “Esperamos que a gente dê uma resposta a isso. Acho que, neste momento, é o que estamos tentando demonstrar”, disse a ministra. O Brasil também espera.

Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog – Google