A Intervenção no Rio e a falência do Estado

0
1272

A medida de Intervenção na Segurança Pública do Rio de Janeiro pelo Governo Federal foi vista por muitos, inclusive da própria área de Segurança do estado, como algo surpreendente. No entanto, quem acompanha as notícias sobre o tema já sabia que a situação estava fora de controle. Vale salientar que o ato é previsto na nossa Constituição e mesmo sendo extremo é legal e juridicamente perfeito, ainda que passível, como qualquer outro assunto, de ser contestado em Tribunal.

A segurança é a última barreira antes do caos. Porém, chama atenção como as várias observações de especialistas sequer mencionem os reais problemas que levaram à circunstância presente. Onde estão as outras áreas de Governo? Se o problema é tão somente de segurança, por que as Unidades de Polícia Pacificadoras não foram suficientes para resolvê-lo antes que se chegasse ao colapso?

A polícia, por si só, não pode resolver o problema da violência do Rio de Janeiro simplesmente porque os problemas NÃO são apenas de segurança pública. O problema do Rio é TAMBÉM de insegurança e o que falta no estado é Governo.

Em locais onde não há saneamento, iluminação pública, saúde, educação, transporte, cultura, cuidado com as crianças, em resumo, presença de governo, colocar só Polícia não adianta. Você pode argumentar que existem diversos lugares no Brasil que são assim e não possuem tal grau de violência, mas não nas condições de uma das maiores metrópoles da América Latina. No Rio as questões são superlativas e suas áreas de vulnerabilidade social foram sendo esquecidas pelos governos ano após ano.

Além disso, no lugar do Estado, aos poucos foram surgindo elementos à margem da sociedade que dominaram o espaço que deveria ser público, o que já foi muito bem representado nos filmes Tropa de Elite do Diretor José Padilha. Ao longo do tempo, também se estabeleceu um acordo tácito entre esses “donos dos morros” e grupos ligados aos processos eleitorais. É simples: quem domina o espaço, domina o voto. E político precisa de voto, não importando como se consegue isto. Basta observarmos que vários políticos que se beneficiaram disto estão, como todos têm notícia, presos ou em vias de serem presos. O crime/corrupção tomaram conta de grande parte do Estado.

Intervir no Comando da Segurança pode até trazer um alívio imediato à população do Rio, mas sem a quebra ou o controle dos processos que levaram o estado até esse desmonte, nada de permanente irá de fato se estabelecer. Pior, pode-se ainda arrastar para dentro do problema, sem que se solucione a questão, as Forças Armadas e o Governo Federal. Nesse caso, a desmoralização do ente Estado, em toda sua amplitude e importância, será completa. Estaremos de fato no CAOS.

Coronel JEAN

Coronel da PMDF, comandou o Batalhão Rio Branco, responsável pela segurança das embaixadas, o Batalhão de Santa Maria e a Academia de Policia Militar. Também esteve na Missão de Paz das Nações Unidas no Kosovo, antiga Iugoslávia. Nos últimos anos na ativa, chefiou o Departamento de Pessoal da polícia e ainda o Departamento de logística. Foi  Administrador Regional da cidade satélite de São Sebastiao. Atualmente está na Reserva Remunerada e é Consultor em Segurança.