Porque me maltratam?

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Sou fruto de um sonho, liderado por um homem de bons propósitos, que foi capaz de comandar transformações antes impensadas, e da obstinação de milhares de brasileiros, que junto com ele fizeram do sonho coletivo uma realidade irreversível e maravilhosa.

Estou cravada no planalto central, como símbolo de um país que decidiu olhar pra dentro de si mesmo, e com isto deixei meu primo rio de janeiro com as belezas naturais, para representar, como nova capital, a força e a pujança do nosso interior, contrariando estatísticas e os mais céticos, que não acreditavam fosse eu possível.

Completo 58 anos, mas a forma como me tratam, me dão ares de 85.

Temos um povo ordeiro, trabalhador e amoroso, não deixam de lembrar do meu aniversário, comemorado todo 21 de abril, mas que esquecem que uma cidade como eu, precisa de cuidados todos os dias. não adianta só me maquiar em data festiva.

Por isto quero pedir um presente, um não, vários, a todos vocês que dizem me amar. Cuidem de mim, e das minhas irmãs mais novas, que me cercam. Não joguem lixo em nós, não invadam minhas terras para fazer do fato consumado uma ampliação sem planejamento, não usem de prestígio para tirarem vantagens junto aos nossos governantes.

Não deixem meu povo sem saúde, está faltando profissionais da área, vejo equipamentos quebrados, medicamentos que insistem em deixar faltar, e gente que esquece a abnegação da sua missão, pra faltarem com seu sacerdócio. Tratamento desumano, mesmo em dias de festa.

Vejo um sofrimento de um povo que recolhe bilhões em tributos, para uma soberba trupe de governantes e políticos que ainda não compreenderam a importância da oportunidade que a vida lhes deu, para conduzir meu destino.

Que quem realmente me ama, não consiga se calar pelo silêncio e pela omissão.

Tapem meus buracos, organizem meu trânsito, e não deixem que a ganância de empresas e corporações façam joguete com milhões que precisam ir e vir. Sensibilizem as estruturas governamentais que fizeram uma indústria que pouco produz, muito nos tira e pouco nos devolve: a indústria da multa.

Roberto Eduardo Giffoni, Procurador Federal e ex-Corregedor-Geral do DF

Cuidem de nossas crianças, a começar pelas creches, insuficientes para atender a demanda e sem fiscalização pra tamanha responsabilidade. Não deixem meus pequeninos sem professor nas escolas e as que estão inadequadas, não permitam que se perpetuem, em nome de uma escolaridade disfarçada. Faltam livros, merenda de qualidade a altura do que pagam por ela e apoio para que os bons profissionais de ensino se sobreponham aos menos dedicados e a interesses meramente corporativos.

Me devolvam a tranquilidade de outrora. Incentivem nossas corporações da segurança pública a atuarem unidas, valorizem-nas, mas cobrem o trabalho a altura de quanto custam pra todos vocês e pra mim também, para que o triste cenário que vivemos, e eu testemunho todos os dias, de uma insegurança, anunciada friamente como mera estatística, se transforme em paz e tranquilidade para todos.

Que meu povo possa fazer festa pra mim no 21 de abril e em todos os dias, cuidando e preservando minhas nascentes e lagos, tendo para comigo o mesmo carinho diário com que me felicitam neste dia especial.

Finalmente, que meus governantes e políticos acordem para a triste realidade que contribuíram e contribuem para me transformar. Estejam à altura das mãos que me forjaram. Cabe a vocês o meu destino e o nosso futuro.  Que eu posso voltar a ser bela e formosa, como quando me criaram.

Vocês me fazem custar caro e devem pelo menos ficar avermelhados quando param pra pensar e por momentos olham na minha alma de concreto, asfalto e jardins, como me deixaram.

Quero, repito, voltar a ser bela, orgulho do mundo, como patrimônio mundial da humanidade, única e amada pelas minhas formas singulares. Afinal, me pergunto todos os dias: Porque me maltratam?

Por Roberto Eduardo Giffoni, Procurador Federal e ex-Corregedor-Geral do DF