“As pessoas não querem morrer, querem acabar com a dor”, diz psicóloga do Samu. Leia a entrevista

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Atualmente, a média nacional de suicídio no Brasil, em todas as idades é de 5,5 por 100 mil habitantes (Foto: Frédéric Cirou/AltoPress/PhotoAlto/AFP/Arquivo)

Andrea Chaves criou curso sobre ‘convergência de emoções’ para órgãos públicos do DF. Ao G1, ela falou sobre saúde mental e casos de suicídio em Brasília

Fonte: G1.com

Então, você percebe gente que entra na faculdade de direito só para fazer um concurso. Aí não passa em um concurso e sente frustrada. Quando passa, já pensa no próximo. As pessoas estão o tempo todo produzindo, produzindo, produzindo. Em vez de estar usufruindo os benefícios do emprego, a pessoa se desgasta nas relações pessoais em virtude de só viver pensando no próximo trabalho.

Discutido em sussurro, o suicídio está habitualmente reservado ao silêncio do tabu ou acaba abafado pelo preconceito. Casos recentes ocorridos em Brasília aumentaram o alerta na capital quanto à necessidade de se debater saúde mental e prevenção.

Nos cinco primeiros meses de 2018, o Corpo de Bombeiros prestou socorro em 804 tentativas no DF. A Secretaria de Saúde contabilizou 41 casos concretizados; em 2017, foram 1.916 tentativas e 167 mortes. A média nacional de suicídio no Brasil, em todas as idades, é de 5,5 por 100 mil habitantes. Em média, 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano no país.

O G1 entrevistou a psicóloga da Secretaria de Saúde do DF Andrea Chaves. Hoje, ela trabalha no Núcleo de Urgências e Emergências Pré-hospitalar do Samu. Ela falou sobre:

O aumento do número de ocorrências de suicídio em Brasília

A incidência de transtornos psíquicos em adolescentes

A relação da internet com a saúde mental dos jovens

O crescimento de transtornos psíquicos em estudantes universitários

A falta de empatia dos dias atuais

O tabu em torno do tema

Durante os 13 anos de carreira, Andrea Chaves criou o curso “Convergência das emoções – cuidando de quem cuida” e implementou o programa em três diferentes pastas do governo do DF: Secretaria de Saúde, Secretaria de Turismo e Terracap.

Psicóloga da Secretaria de Saúde do DF Andrea Chaves criou o curso “Convergência das emoções – cuidando de quem cuida” (Foto: Letícia Carvalho/G1)

188

Desde o início deste mês, as ligações para o 188, telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV) – associação civil sem fins lucrativos que trabalha com prevenção ao suicídio –, passaram a ser gratuitas em todo o país.

Pelo número, os cidadãos recebem apoio em momentos de crise. A gratuidade das ligações foi garantida por convênio com o Ministério da Saúde. Ao todo, foram repassados R$ 500 mil para o CVV.

Leia a entrevista abaixo

G1: Inúmeras ocorrências policiais em Brasília têm envolvido pessoas com depressão e casos de suicídio. O cenário atual está pior do que era antes?

Andrea Chaves: O número de pessoas que tiram a própria vida aumentou. É fato. O anuário de violência mostra que, de 2011 a 2012, o Distrito Federal ficou em primeiro lugar no ranking nacional de aumento de tentativas de autoextermínio. O percentual de pessoas que efetivaram suicídio cresceu quase 5%.

G1: Quais são as explicações para esse aumento?

Andrea Chaves: Quando comecei a trabalhar com essa parte de desenvolvimento de pessoas vi, na prática, o que a teoria traz. A gente vive em um sociedade “performista”. Você tem sempre que “performar”.

Há sempre os seguintes pensamentos: “Eu faço faculdade. Daqui a pouco, preciso fazer pós-graduação”, “eu passo em um concurso e já tenho que pensar no próximo”, “se eu não passo em um concurso, o que estou fazendo com a minha vida?”, “Casei. Agora, cadê o filho?”, “Tenho uma casa, agora, quero ter um apartamento”, “tenho dinheiro, tenho que fazer aplicação”… Então, o tempo inteiro, as pessoas precisam “performar”. Fora a correria do dia a dia.

Suicídios de adolescentes: como entender os motivos e lidar com o fato que preocupa pais e educadores

A gente tem muito claro que a internet trouxe uma irritabilidade maior para as pessoas porque abaixou a nossa resistência à frustração. Porque, antes, quando um filho saía de casa, a mãe falava: “Olha, volta às 22h”. O máximo que ela poderia fazer era rezar e esperar as 22h. Agora, não. Ela começa a mandar WhatsApp. Se o cidadão não ler, não responder ou não atender o telefone, ela já fica pensando em milhares de coisas.

Então, os níveis de controle e de ansiedade aumentaram porque a informação está muito rápida e isso influencia diretamente no grau de resistência das pessoas.

Suicídio ainda é tabu, mas especialistas defendem que deve ser mais debatido (Foto: BBC/Thinkstock)

O poder financeiro e o acesso à educação melhoraram. Com isso, a insatisfação das pessoas aumentou porque elas sempre querem mais. E há um outro fator. Hoje, as pessoas têm as coisas de maneira muito rápida. Então, tolerância à frustração é zero. O que a gente percebe diante desse cenário é o aumento do número de suicídio, principalmente, de adolescentes, além de casos de automutilação.

Quando você vai analisar, percebe, nessas pessoas, uma grande necessidade de autoafirmação, ausência de figura paterna ou materna… Quando falo de figura, falo de uma figura representativa que consiga dar esse suporte emocional. Então, uma pessoa que não se sente segura e que não consegue ter afetos sólidos acaba buscando isso em qualquer outro lugar. E, no primeiro não, o que ela faz? Ela se retalha.

“As pessoas não querem morrer, elas querem acabar com a dor.”

Você percebe, nos relatos das pessoas que tentam suicídio e até que se suicidaram, que elas querem acabar com a dor, com a angústia.

G1: Você apresentou um dado sobre o DF. Por que a capital federal registra tantos casos de suicídio?

Andrea Chaves: Acho que Brasília, mais do que as outras cidades do país, tem um perfil de produtividade muito alto. Por exemplo, aos domingos, não há gente na rua. Os vínculos sociais em Brasília são menores. Para você visitar alguém, é preciso marcar, mandar mensagem… Em outras cidades, você toca o interfone e fala “oi, amiga. Vim aqui”.

Estudos científicos comprovam que a fé e a amizade são fatores protetivos. Mas nós somos ligados, aqui, à produtividade. A gente funciona em horário comercial, as pessoas vem a Brasília para trabalhar, para produzir. Elas ficam o tempo inteiro em busca de coisas e se esquecem de quem elas são. Às vezes, você encontra gente frustrada sendo servidor público. E quem disse que ser servidor público é a melhor coisa do mundo? As pessoas se violam em virtude da produção.

Então, você percebe gente que entra na faculdade de direito só para fazer um concurso. Aí não passa em um concurso e sente frustrada. uando passa, já pensa no próximo. As pessoas estão o tempo todo produzindo, produzindo, produzindo. Em vez de estar usufruindo os benefícios do emprego, a pessoa se desgasta nas relações pessoais em virtude de só viver pensando no próximo trabalho.

Desde julho de 2018, ligações para o 188, telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV), passaram a ser gratuitas em todos o país (Foto: Voisin/Phanie/AFP)

As pessoas não falam de saúde mental, de transtornos psíquicos. Elas não falam, de fato, o que é a depressão, o que é a ansiedade e o que é o suicídio. “Mas todo mundo tem que superar tudo, todo mundo é feliz, nas redes sociais todo mundo é lindo”? Isso tudo influencia diretamente na questão do suicídio.

Eu vejo isso na prática, nos consultórios e no próprio Samu. Já participei de ocorrências de suicídio consumado e de tentativas. No consultório, falo que, por mais que as pessoas estejam com as ideias desorganizadas, elas se arrumam para estar lá. No Samu, não. A gente chega à cena nua e crua. Quando atendemos os pacientes, percebemos que nunca o caso é somente do paciente. A gente percebe uma família doente. É sempre um meio doente.

G1: Na resposta anterior, foi mencionada a influência da internet nesse aumento de casos de suicídio, principalmente, entre adolescentes…

Andrea Chaves: A internet e a falta de regras por parte dos pais tem contribuído bastante para esse cenário. Hoje, os pais trabalham mais para sustentar essa eterna produtividade. Esses dias, fui a um restaurante no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, em um bairro nobre, e o garçom apresentou um suporte de tablet para crianças. A justificativa era para que os pais pudessem conversar. Então, você vê crianças pequenas que não sabem falar, mas sabem passar a mão no token.

As crianças, desde cedo, estão expostas a muitos estímulos. Quanto mais estímulos eu tenho, mais alterada eu fico. Isso é orgânico.

Você vai ver as agendas de crianças de 3 anos e encontra inglês, balé, natação… E pais ausentes.

Aplicativos de redes sociais em um smartphone (Foto: Thomas White/Reuters)

Para suprir essa ausência, os pais têm dificuldade de dizer não e de impor limites. O resultado são adolescentes que não sabem lidar com a frustração. As pessoas precisam entender que a frustração faz parte da vida: “Eu não faço tudo o que eu quero, não como tudo o que eu quero, não vou aonde eu quero”. Existem limites e regras.

No primeiro não que eles recebem de uma namorada, ou de um estágio, ou de uma situação de amigos, ou de qualquer situação que gere rejeição, eles atentam contra a própria vida, começam a se mutilar.

Os pais acham que é para chamar atenção. De fato, é para chamar atenção, mas é porque eles não sabem fazer de maneira diferente. E querem atenção porque eles não se sentem acolhidos. A maior reclamação de adolescentes que eu vejo é dessa falta de acolhimento, de falta de representatividade social.

G1: Podemos dizer que tem faltado empatia nas relações sociais?

“Acredito que tem ocorrido um processo que eu chamo de ‘desumanização’. Um afastamento do ser humano.”

Andrea Chaves: Jogo o lixo no chão porque acho que estou dando trabalho para o gari. Pensamentos assim nos afastam do que é ser humano. Temos que amar, acolher, entender que o outro sofre e permitir que ele sofra também. Ninguém fala de saúde mental, dos transtornos psíquicos, mas as pessoas acham que todo mundo tem que superar tudo.

Tenho uma paciente que o bebê morreu com 6 meses de vida e ela está em estado de luto, administrando essa dor. E o luto é um processo. O que ela mais reclama, no consultório, é a cobrança social que as pessoas têm para que ela supere essa dor. “Porque fulano perdeu o bebê e montou uma ONG, porque fulano perdeu o bebê e está fazendo campanha…” Ela está vivendo o luto dela há um ano. É muito tempo? Eu não sei, para quem?

As pessoas estão se perdendo delas mesmas. Quando eu não sei quem eu sou, não valorizo a minha vida e facilmente tiro a minha vida.

G1: Recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) registrou o primeiro suicídio dentro de seu câmpus. O caso colocou a capital e a própria UnB em alerta quanto à necessidade de se discutir saúde mental e prevenção ao suicídio…

Andrea Chaves: A universidade é um ambiente hostil. O jovem acaba de sair do segundo grau, onde ele tem algumas regras e, depois, vai para um ambiente completamente solto. Lá, ele assiste aula se quiser e passa a viver em uma atmosfera de muita cobrança e de muita produtividade.

No mestrado, você passa a não ser você. Você vira o seu currículo Lattes. A universidade é um ambiente de muitas tribos, de muitas diferenças, e é um ambiente onde eu me permito ser o que eu quero ser. O jovem, então, passa a se ver em um processo de adaptação a um novo ambiente social e organizacional.

Pressão da escola pode desencadear transtornos mentais em adolescentes (Foto: Voisin/Phanie/AFP/Arquivo)

A universidade tem de desmistificar os transtornos psíquicos, oferecer um lugar de escuta e de empoderamento das pessoas. Hoje, o que a gente escuta é que as pessoas não podem ter depressão, crise de ansiedade…

Sou psicóloga comportamental e acredito que a gente vai treinando nossos repertórios comportamentais ao longo da vida. O ambiente terapêutico é um lugar seguro para você treinar esses novos comportamentos. Para, inclusive, você ser você, falar sem tabus, sem fatores sociais que colocam você em uma caixinha.

G1: Falar sobre suicídio ainda é um tabu. Como podemos prevenir o suicídio se não falarmos sobre ele?

Andrea Chaves: A gente precisa divulgar vida. Infelizmente, alguns órgão da imprensa noticiam os casos de maneira muito dura, inclusive, com o fator de julgamento. As pessoas que se matam têm uma história de vida, e ela não é abordada.

Além disso, também são divulgadas as formas como alguém se matou e isso influencia quem está lendo e enfrentando uma situação difícil na vida. O meio pelo qual a pessoa tentou o suicídio não deveria ser informado.

A gente também está tratando muito o fruto sem entender a raiz. A gente fala do suicídio, mas o que está na raiz? Digo que psicoterapia não é para consertar o que está desajustado ou cuidar de doenças psiquiátricas. Ela é também para restaurar a essência do que há de melhor nas pessoas e ajudá-las a buscar alternativas de vida plena mesmo em meio aos conflitos.

“O suicídio é um fruto social e ele precisa ser debatido.”

Precisamos pensar na raiz e tratá-la. Precisamos falar de saúde mental, precisamos falar que depressão é uma doença, que não é uma frescura, que depressão é orgânica, que há alterações químicas no indivíduo que fazem ele ser depressivo.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 97% dos casos de suicídio são de doenças psíquicas não tratadas. A OMS diz também que, até 2020, a quantidade de suicídios vai aumentar. E por que vai aumentar?

Se existe esse dado, essa previsão de que aumentar, o que a gente pode fazer, então? Vamos frustrar essa estatística, vamos tratar a raiz, vamos cuidar das pessoas e vamos voltar àqueles ensinamentos básicos do jardim de infância: obrigado, por favor, com licença, não pegue o que é seu. Se a gente cumprisse esses princípios, a gente viveria melhor em sociedade.

SUICÍDIO: é preciso falar sobre esse problema

Nas várias cartas de suicídio consumado que li durante o meu trabalho, o que mais vi foi a frase “ninguém me ouviu”. A gente faz curso de oratória, mas a gente não faz curso de “escutatória”. A gente aprende a falar, mas não aprende a escutar o outro. Às vezes, o outro não vai ter acesso a um psicólogo, mas vai ter acesso a você, enquanto pessoa, enquanto integrante da família…

Falamos muito: “Nossa! De repente, fulano se matou”. Não é de repente. Depressão não é frescura ou falta de ter algo. É uma ausência química. Precisamos voltar o nosso olhar para o ser humano.

Empoderar as pessoas a serem quem elas são, permitir que as pessoas sofram, acolher as pessoas em seus sofrimentos, mas, também, protegê-las. Protegê-las de relações abusivas, de trabalhos abusivos, de sobrecargas sociais abusivas.

À medida que eu me protejo, consigo cuidar do outro. Só consigo levar alguém para onde eu já fui primeiro.