“Combinadinhos” disputam entre eles quem vai para o segundo turno

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RICARDO BOTELHO/ESPECIAL PARA O METRÓPOLES

Metropoles.com

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) disse que os candidatos adversários estão “combinadinhos” para derrotá-lo. É óbvio que todos os demais 10 candidatos ao governo querem impedir que ele continue no Buriti, e estranho seria se algum deles estivesse apoiando sua reeleição. Mas Rollemberg estava se referindo particularmente a quatro de seus oponentes, os que lideram coligações oriundas do grupo político formado pelo ex-governador Joaquim Roriz e que tem agora como líderes o também ex-governador José Roberto Arruda (PR) e o ex-vice-governador Tadeu Filippelli (MDB).

O tronco rorizista, que já se apresentava com três chapas quando o ex-deputado Jofran Frejat (PR) ainda era candidato, está disputando a eleição com quatro coligações, apesar da origem comum, do pensamento político e ideológico praticamente igual e dos programas de governo extremamente semelhantes. No debate realizado pela Band, na noite do dia 16 de agosto, ficou claro que Alberto Fraga (DEM), Eliana Pedrosa (Pros), Ibaneis Rocha (MDB) e Rogério Rosso (PSD) tinham um pacto de não agressão entre eles.

Embora “combinadinhos” para derrotá-lo, como diz Rollemberg, esses quatro candidatos estão mesmo é disputando entre eles quem vai para o segundo turno, e aí precisarão do apoio dos demais. Podem ir dois deles, ou apenas um, contra Rollemberg ou contra um dos demais candidatos tidos como azarões – afinal, essa é uma eleição diferente, indefinida e na qual tudo pode acontecer. De todo modo, o segundo turno dificilmente não terá um desses quatro candidatos, pela força política e eleitoral que tem essa “direita” em Brasília.

Fraga, Eliana, Ibaneis e Rosso poderiam estar na mesma coligação, se não como candidatos majoritários, disputando uma cadeira na Câmara ou apenas apoiando a composição. O que os divide é que, com o afastamento de Roriz, as situações judicialmente complicadas de Arruda e Filippelli e a desistência de Frejat, os quatro candidatos se consideram em condições de assumir a liderança da corrente política e governar a cidade. Cada um deles aceitaria os demais em suas chapas, desde que ele estivesse na cabeça.

Fraga é o candidato de Arruda, a quem fez questão de exaltar no debate na Band. Eliana tem o apoio declarado da família de Roriz, expressado por sua mulher, Weslian, e pelas filhas Jaqueline e Liliane. Rosso elogiou Roriz no debate e não esconde que deve a ele sua iniciação na política. Ibaneis lidera a coligação que tem três partidos direta ou indiretamente comandados por Filippelli. No mesmo debate, Ibaneis procurou se desvencilhar do grupo, dizendo que não participou de governos anteriores e se apresentando como “proposta nova” surgida da “sociedade civil”.

Além da mesma origem e das identidades e semelhanças, os quatro à direita têm mostrado outros pontos em comum: a vontade de agradar aos servidores públicos, descontentes com Rollemberg, e as propostas de nítida feição demagógica, especialmente quando todos sabem das dificuldades fiscais não só em Brasília como no país. Nos quatro programas de governo há algumas propostas idênticas e a profusão dos verbos construir, criar, ampliar, reformar, recuperar e revitalizar, em listas enormes de obras e realizações sem dúvida importantes, mas sem que haja alguma explicação consistente sobre como viabilizá-las.

O programa de Ibaneis, com 69 páginas, é o mais elaborado, articulado e aprofundado, mas não escapa de afirmações genéricas, como a de que vai reduzir os impostos aos valores de 2010 e, em contrapartida, aumentar a arrecadação com mais “eficiência e aumento da base de contribuintes”, ou de que vai criar uma universidade pública distrital. O programa de Eliana, 45 páginas, tem um bom diagnóstico inicial seguido de uma relação enorme de obras, como a construção de sete hospitais e inúmeros viadutos, a criação de várias secretarias e até de uma empresa de eventos e a volta da bolsa universitária e da distribuição de pão e leite. No debate, Eliana prometeu reduzir o número de pardais nas vias.

Rosso fez uma introdução de dois parágrafos e ocupou 10 páginas com uma relação desorganizada do que pretende fazer se for eleito. Um dos pontos diz apenas “reduzir impostos do contribuinte”.  O programa de Fraga tem 59 páginas e é uma colagem desencontrada de textos mal escritos e repletos de erros de português. Entre suas propostas estão a “produção” de 120 mil moradias, a construção de uma cidade da música e um museu do rock, a volta do pão e leite e a criação de uma bolsa de R$ 50,00 por aluno para incentivar o desempenho na escola.

Nos programas de governo e em suas falas, os quatro candidatos da direita, e Rosso em especial, têm mostrado claramente que querem os votos dos servidores públicos. Além de prometerem pagar no primeiro mês a terceira parcela do reajuste concedido por Agnelo Queiroz e de restabelecer a equivalência entre a remuneração dos policiais civis e a dos policiais federais, deixam explícito que não pretendem privatizar as empresas públicas.

As pesquisas qualitativas, os elevados índices de não voto e o que se ouve nas ruas têm mostrado que os eleitores reprovam os velhos métodos políticos e rejeitam promessas mirabolantes e que pareçam distantes de serem concretizadas. Mas os políticos tradicionais têm conseguido neutralizar os candidatos que possam representar alguma renovação e, seguros de que o jogo é entre eles, insistem em suas práticas habituais, certos de que propostas demagógicas e atraentes, embora geralmente inviáveis, são mais bem recebidas pelos eleitores do que as realistas e racionais.

Têm razão de pensar assim, com base no passado, embora alguns se iludam achando que Frejat cresceu, em 2014, ao propor a tarifa de ônibus a um real — pesquisas realizadas na época mostraram que o impacto foi mais negativo, por ser identificada como irrealista e demagógica, do que positivo.

Não deverão ser as propostas que fazem e farão, porém, que serão decisivas para definir as colocações dos quatro no primeiro turno. Os eleitores contra Rollemberg e que veem nesse grupo a alternativa para o próximo governo deverão levar em conta, principalmente as características pessoais e o estilo de cada um deles. Tenderão a dar vantagem a quem se mostrar mais veemente nas críticas ao atual governo e mais capacitado a governar diante da complexidade dos problemas e das limitações de recursos que enfrentarão.