Goleiro Bruno e as audiências de custódia

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Nas últimas semanas um assunto foi inevitável, a libertação do goleiro Bruno. Apesar de meus esforços em manter-me afastado do assunto a indignação supera o bom senso, sou obrigado a me juntar a multidão dos frustrados diante das “polêmicas” decisões da “justiça” brasileira. Tomado por um sentimento de desamparo, um vazio, a barreira que deveria separar os homens de bem dos maus, no Brasil, tornou-se tão permeável que a máxima de Rui Barbosa parece uma profecia cumprida, atualmente o cidadão honesto sente vergonha da sua integridade.

Mas a libertação prematura do assassino condenado é apenas o sintoma de uma doença muito mais grave que assola a nação. Que se manifesta em infecções e necroses muito mais fétidas e purulentas. Tome-se como exemplo as malditas audiências de custódia, talvez uma das maiores indignidades a que pode ser submetido um cidadão nas terras tupiniquins. Imagine ser vítima de um crime, nada grave, um assalto. Mas use ainda mais sua capacidade de construir cenários, neste assalto a polícia conseguiu prender o bandido, recuperar seus bens, apreender uma arma de fogo. Então, em um lampejo de eficiência estatal, vítima, bandido, policial, defensor público, promotor e juiz estão reunidos em uma audiência, imediatamente após o ocorrido. Claro, você pensa, um julgamento rápido, afinal foi uma prisão em flagrante temos todos os elementos para colocar este marginal atrás das grades. Neste momento, Sua Excelência, do alto da autoridade de sua toga negra, dirige-se aos mortais e logo interpela o marginal:

– Senhor Marginal, está audiência não é para julgar seus atos criminosos, mas para determinar se os policiais agiram de forma correta no ato de sua prisão.

Isso mesmo, ninguém está ali para tratar do trauma da vítima, ou para saber se o policial, que efetuou a prisão, está ferido ou mesmo para julgar o marginal, preso em flagrante. O objetivo do circo é determinar se de alguma forma os direitos do “cidadão trabalhador em conflito com a lei”, foi de alguma forma desrespeitado pelo truculento e opressor policial que, de forma autoritária e violenta, fica andando pelas ruas impedindo que as vítimas do sistema capitalista manifestem sua revolta através a expropriação da burguesia. Na verdade, dependendo das alegações do bandido, quem pode sofrer um processo, talvez uma prisão, é o policial que evitou o crime.

Nossos queridos magistrados alegam que as audiências de custódia visam desafogar o sistema prisional, diminuir o número de encarceramentos que, traduzindo, significa penas mais brandas mais cestas básicas, prisões domiciliares, multas e serviços comunitários. Política que vem funcionando de forma assombrosa no país, basta ver como o número de homicídios vem crescendo de forma assustadora, quase 60.000 mortes violentas por ano. E não uso de ironia quando digo que a política está funcionando, pois essa é uma política deliberada, intencional e declarada de favorecimento das ações criminosas. Tudo em nome de uma ideologia tóxica que vem devorando a alma da nação e nos transformando no país mais burro e violento da face da terra. De acordo com um estudo, realizado em 2014 pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), de cada 10 homicídios praticados no mundo um aconteceu no Brasil. Conseguimos alcançar a taxa assustadora de 29,1 homicídios por 100.000 habitantes o que nos coloca entre os 12 países mais violentos, em uma lista de 154 nações.

(http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&id=27412 )

O número de homicídios no Brasil é igual aos homicídios somados de todos os países em azul

E quanto a incapacidade intelectual de nossos estudantes? Fator que estou levando em consideração para nos qualificar entre os mais burros da terra. Não acredita? Confira os resultados dos últimos anos do PISA, Programa Internacional de Avaliação de Alunos (em inglês: Programme for International Student Assessment – PISA), rede mundial de avaliação de desempenho escolar. O exame foi realizado pela primeira vez no 2000 e é repetido a cada três anos. Na última avaliação, entre 70 países, nossos alunos conseguiram o sensacional 63º lugar ficando atrás de potências científicas, como Trinidade e Tobago, Costa Rica e Colômbia. Se você achou o 7X1 da Alemanha sobre o Brasil um chocolate precisa ver a surra que a gente toma no PISA. Enquanto o escore dos alunos alemães em ciências foi de 509 pontos, os nossos não passaram dos 401. Em um momento assim é que precisamos reconhecer que não havia ninguém melhor que Paulo Freire para ser o patrono da educação no Brasil afinal, seu legado e ensinamentos tem envenenado gerações de professores contribuindo para o atual quadro de penúria do sistema educacional no Brasil.

 (http://www.oecd.org/pisa/PISA-2015-Brazil-PRT.pdf )

A libertação do Goleiro Bruno, que esquartejou uma mulher e alimentou seus cães com a carne de sua vítima, é um alerta máximo. Um sinal de como avançou a destruição dos valores mais fundamentais e basilares da nossa cultura. Como os desconstrucionistas têm conseguido implementar suas teorias mais perversas, com o objetivo de implantar aqui uma “utopia”. O emblema é claro, se um assassino selvagem é liberado, porque manter encarcerados os políticos corruptos? Afinal os crimes contra a vida são muito mais graves do que aqueles que lesam apenas o patrimônio. Parece uma preparação para a soltura dos maiores saqueadores da nação, uma afronta a todas as manifestações e mobilizações da sociedade. Um cala boca em todos que ainda acreditam na democracia brasileira.

 (leia: http://www.olavodecarvalho.org/semana/061127dc.html )

As audiências de custódias seguem pelo mesmo caminho, quando a justiça libera de forma célere um marginal preso em flagrante, ou seja, com produto do crime, vítima presente, policial e testemunhas. Desprezando o trauma sofrido pela vítima e os méritos dos agentes responsáveis pela prisão, concedendo ao criminoso toda atenção e boa vontade. Qual é a mensagem que se passa? No mínimo a de que o crime, neste país, realmente é uma atividade compensadora, nobre, uma profissão. E se bandidos de rua, comuns, sem conexões políticas, poder econômico ou influência contam com toda a boa vontade do nosso sistema judiciário, quanto mais os envolvidos nos grandes esquemas. Parece que todos os fatores nos levam a vislumbrar uma pizza tamanho família. Na verdade, todos os bons resultados obtidos até agora, no combate à corrupção, não foram conquistados em razão da legislação ou da eficiência do nosso sistema judiciário, mas apesar deles.

A disseminação da impunidade em todos os níveis da justiça manifesta-se como um deboche das autoridades sobre a população do país, caso esta catástrofe dos fóruns fosse um sorvete as audiências de custódia seriam as cerejas adornando as guloseimas. O problema é, que apesar da aparência apetitosa, estas sobremesas estão envenenadas e contaminam a sociedade de uma forma irreversível. Aliás, se na justiça as audiências são um detalhe sórdido, uma cereja, no caos da segurança pública é um poderoso catalizador da impunidade, o fermento que faz com que a massa da criminalidade e da reincidência cresça de forma descontrolada.

A libertação prematura do Goleiro Bruno não é a doença, mas um dos sintomas mais evidentes do estágio terminal em que se encontram as instituições do país que, contaminadas pelas ações da revolução cultural em estágio avançado, produzem os atos que resultarão na sua própria destruição. A defesa da democracia, no Brasil, passa pela recuperação das nossas instituições e dos valores fundamentais da nossa civilização. Através de ações que só podem ser tomadas por aqueles que acordaram do sono da morte, e que estejam dispostos a enfrentar suas consciências no processo, infelizmente sofremos de uma moleza moral generalizada que transforma a maioria de nossas autoridades, homens públicos e cidadãos em geral em homens de geleia.

Escrito por : Luiz Fernando Ramos Aguiar

Fonte: Blitz Digital

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