Bolsonaro diante do risco para a “governabilidade”

0
255
Bolsonaro: Emparedamento

Postado por Poliglota – Via arepublica.com.br

Ao comentar a prisão do ex-presidente Michel Temer, o presidente Jair Bolsonaro reafirmou sua vontade de manter um relacionamento diferente com o Congresso, com o qual o ex-presidente viveu de acordos para sobreviver no cargo e, ainda assim, sem conseguir passar a reforma da Previdência. “Está claro que a política em nome da governabilidade, feita no passado, não estava correta”, disse.

O presidente, porém, está agora no mesmo ponto que seu antecessor. Começou a enfrentar a resistência do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, aliado na formação de uma base de sustentação parlamentar, mas que na prática vem enviando sinais de que criará obstáculos para as reformas.

O fato é que, ao não levar suas propostas adiante, Bolsonaro vai sendo emparedado. E se vê diante da ingovernabilidade.

“Paradoxo brasileiro: os partidos são fracos, o Congresso é forte”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique no fim de semana em seu Twitter. “Presidente que não entende isso não governa e pode cair.”

Afirmou que o confronto é má política. “Maltratar quem preside a Câmara é caminho para o desastre”, prosseguiu. “Precisamos de bom senso, reformas, emprego e decência. Presidente do país deve moderar, não atiçar.”

Pior, a queda de braço entre Executivo e o Legislativo surge num momento em que o ataque a instituições como as Forças Armadas,  e Supremo Tribunal Federal começam a estender a ameaça de paralisa a todo o sistema – o ambiente onde as vivandeiras gostam de alimentar a fogueira dos golpes.

EMPAREDAMENTO

Maia conseguiu ser o centro da desestabilização, ao disparar contra o governo a quem prometeu apoio. Cobrado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, que pediu algum andamento para o exame do pacote anti-crime também enviado ao Congresso, Maia respondeu que ele é “funcionário do Bolsonaro” e, portanto, só falaria com o chefe.

No entanto, para discutir a Previdência, Maia tem usado como interlocutor o ministro da economia, Paulo Guedes, que, assim como Moro, é ministro de Estado. Em um caso como no outro, tira de campo o interlocutor e articulador político do governo, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que, apesar de pertencer ao mesmo partido, é seu desafeto.

Ao escolher com quem fala e com quem não fala, Maia bloqueia propostas que não são de um ou outro ministro, mas do governo, e começa o emparedamento de Bolsonaro. Na coluna Painel de sábado, a jornalista Daniela Lima registra que Bolsonaro era chamado na sexta-feira no mercado financeiro de “a Dilma de calças”.

Escreveu Lima que “o incômodo de deputados de diversos matizes foi explicitado de maneira cristalina a integrantes da cúpula do Exército nesta sexta”. E acrescentou que “governadores simpáticos a Bolsonaro e dirigentes partidários já falam em um chamado aos militares, tanto para cobrar uma atitude incisiva de correção de rumos como para abrir canais de diálogo permanente sobre o cenário político”.

“NAMORADINHA”

Ao se transformar na noiva que de repente não quer ir para o altar, Maia coloca o ex-futuro marido numa posição delicada. “É a namoradinha querendo ir embora”, constatou Bolsonaro, do Chile.

Maia fez vazar para a imprensa sua insatisfação com o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, que replicou no seu Twitter a queixa pública do Moro à sua rejeição por Maia. “Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais”, escreveu Moro, no texto retuitado por Carlos.

Maia então mandou recados a Bolsonaro, afirmando que caso não silenciasse o fillho, abandonaria a articulação para a aprovação da Nova Previdência. Um pedido complicado, já que tanto Bolsonaro quanto Carlos costumam dizer que o filho só fala com autorizaçao do presidente – seriam, portanto, a mesma coisa.

Colocou-se em posição de dar lições de moral ao presidente, ao afirmar que ele deveria “ter mais tempo para cuidar da Previdência e menos tempo cuidando do Twitter, porque senão a reforma não vai avançar”.

“Eu não preciso almoçar, não preciso de café e não preciso voltar a namorar”, disse Maia à TV Globo. “Eu preciso que o presidente assuma de forma definitiva o seu papel institucional, que é liderar a votação da reforma da Previdência, chamar partido por partido que quer aprovar a Previdência e mostrar os motivos dessa necessidade.”

“SEJAMOS JUSTOS”

O primeiro a baixar as armas foi Moro.”Vamos retomar a conversa assim que for possível, não há motivo para conflito por conta de desentendimento pontual”, disse, na sexta-feira, à Folha de S. Paulo. “Respeitamos a liderança dele na Câmara”.

Ao mandar sinais de que ele é quem dá as cartas em Brasília, Maia ativou a personagem trazida por Bolsonaro para desatar os nós no relacionamento com o Congresso, a deputada Joice Hassellmann (PSL-SP).

Nomeada como nova líder do governo no Congresso, ela convocou uma entrevista à imprensa na tarde de sexta-feira na tentativa de colocar panos quentes na situação.

“Eu creio que o Rodrigo Maia não desistirá da aprovação da Nova Previdência”, disse. “Temos que ser justos, quem mais tem trabalhado pela Nova Predência, comigo, com o Onyx [Lorenzoni], com o presidente [Bolsonaro] é o Rodrigo Maia.”

Hasselmann afirmou que estava tentando organizar uma agenda para colocar as bancadas regionais para falar com o presidente. “Não existe contrapartida, o que o Congresso quer é simplesmente diálogo”, afirmou. “Pessoas de fora do governo, que não têm nada a ver, estão atacando líderes e o presidente da República. Isso gera desgaste na rede.” Hassellmann, porém, não quis desdizer Carlos. “Eu não vou falar sobre o filho do presidente”, afirmou.

Criticou o próprio partido, que tem se mostrado vacilante no apoio à Nova Previdência, em especial depois que Bolsonaro enxotou do governo o ex-presidente da legenda, Gustavo Bebbiano, por quebra de confiança. “Nós somos partido do presidente, cabe ao líder do partido aparar arestas”, disse ela.

PARALISIA

Hassellmann tem um grande trabalho pela frente, para evitar que o Executivo caia na paralisia. Pior, o risco do congelamento começou a se estender para outras instituições, que passaram a sofrer constante ataque, tanto da imprensa, quanto das redes sociais e da própria Justiça.

A primeira dessas instituições é o Supremo Tribunal Federal, exposto por uma tentativa de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado para investigar suposta venda de sentenças por alguns de seus ministros, protocolada na semana passada com a assinatura de 29 senadores.

A divulgação de que a Receita Federal tem vasculhado as contas pessoais e de parentes de ministros do STF, a começar pelo presidente do tribunal, Dias Toffoli, e Gilmar Mendes, que tem votado sistematicamente contra a Lava Jato, colocou os ministros do Supremo num confronto aberto com os aparelhos de investigação do governo federal, responsável pelo Fisco, e do próprio Judiciário.

A votação no STF por 6 a 5 que tirou da Justiça Comum os casos da Lava Jato relacionados a crimes eleitorais, considerada uma manobra casuísta, fez com que os juízes da Lava Jato reagissem de pronto.

No pedido de prisão de Michel Temer e outros nove integrantes do chamado “quadrilhão” do MDB, incluindo o ex-ministro e ex-governador do Rio de Janeiro, Moreira Franco, o juiz Marcelo Bretas escreveu expressamente que não existe relação dos crimes apontados com a área eleitoral. Com isso, procurou evitar que os processos sejam cassados da Lava Jato para serem lançados na Justiça Eleitoral.

DESESTABILIZAÇÃO

O fato é que está em curso um processo de desestabilização do STF, no confronto com a Lava Jato, apoiada nas redes por detratores dos ministros acusados e pelo próprio Judiciário que lhe dá suporte. Ao tirar a credibilidade do STF, essa manobra tira também sua legitimidade – uma guerra o que pode também levar à paralisia do sistema.

Nesse moedor de carne em que se transformou a máquina pública, não escaparam sequer as Forças Armadas. Primeiro, Maia reclamou que a proposta da Previdência para os militares teve mudanças pífias, e usou isso como alegação para parar a aprovação de toda a reforma.

Coincidentemente, com base em dados lançados pelo Ministério Público, o jornal Folha de S. Paulo publicou na terça-feira passada uma reportagem segundo a qual foram verificados desvios de 190 milhões de reais nos governos anteriores, por conta de fraudes em licitações e outros vazamentos indevidos nos quartéis.

É café pequeno perto dos bilhões desviados da Petrobras, mas a iniciativa do Ministério Público de investigar os militares, e dar divulgação à investigação bem no momento da discussão da reforma da sua aposentadoria, mostrou uma clara intenção de enfraquecer a ala apontada até agora como o esteio mais firme e incontestado da agitada era Bolsonaro.

A destruição paulatina das instituições, somada à paralisia do Executivo, num cenário de crise econômica, enraizamento do crime organizado e polarização política, é o cenário que no passado favoreceu os golpes.

Cabe aos agentes envolvidos nessa embrulhada aparar arestas para que o Brasil não emperre como uma engrenagem que só funciona para fazer andar a corrupção e proteger os malfeitores. Caso contrário, as vivandeiras terão razão.