O coronavírus e o colapso do sistema de segurança pública

182
Foto: Ilustração NSC Total

É preciso que as polícias percebam rapidamente que elas estão em uma missão humanitária, não na tradicional “guerra contra o crime”

**Por Rafael Alcadipani

Há cerca de 15 dias, escrevi algumas reflexões a respeito do impacto do coronavírus(i) na Segurança Pública. Desde então, a situação do país com relação ao vírus só piorou. Muito se tem falado do colapso do sistema de saúde do Brasil. Porém, poucos estão discutindo que o sistema de segurança pública também pode entrar em colapso. Infelizmente, parece que até o momento o Brasil está cometendo vários erros, os mesmos que levaram a Itália a uma situação desastrosa. O epicentro da doença, São Paulo, está demorando para entrar em quarentena total. Há uma grande circulação de pessoas pela cidade e saindo da cidade espalhando o vírus internamente e para outros locais. Além disso, estamos perdendo momentos importantes em disputas políticas entre governadores, entre governadores e prefeitos, entre governadores e o governo federal e dentro mesmo do governo federal. Contrariamente a indicação da Organização Mundial da Saúde, estamos apenas testando os casos mais graves e há uma clara falta de sintonia entre as Secretarias de Saúde e o Ministério da Saúde e a rede privada e o Governo no que diz respeito as estatísticas. Isso significa que não temos ao certo a quantidade de casos do país com maior precisão e pessoas contaminadas não estão sendo isoladas. A doença está apenas agora chegando nas classes sociais mais baixas. Ela irá se propagar nas grandes periferias onde pessoas vivem dentro de casas onde o isolamento é impossível.

Diz o ditado Chinês que “podemos escolher o que plantar, mas somos obrigados a colher o que semeamos”. Frente ao que está acontecendo, o Brasil caminha para ser um dos piores países do mundo em relação a propagação do vírus. Em breve, a proibição da circulação de pessoas terá que ser total e o país irá parar. Neste cenário, as forças de segurança terão papel fundamental. Em primeiro lugar, as polícias terão que mudar a sua atuação. Elas terão que estar nas ruas para impedir que as pessoas circulem. Uma coisa é fazer isso em países como Espanha, Itália e França. Outra é no Brasil. Quem conhece as comunidades brasileiras sabe que é praticamente impossível garantir, pelas dificuldades da característica da urbanização destes locais, que as pessoas fiquem de fato em casa. Mesmo nas áreas centrais, muitas pessoas irão tentar quebrar a quarentena imposta pelo Estado. Na Itália, o efetivo policial está sendo empregado para coletar material para o exame do vírus na casa das pessoas. Isso também pode ser necessário no Brasil. Além disso, parte expressiva das pessoas que estão nas periferias vivem de empregos precários. À medida que a retração da economia aumenta, inúmeros trabalhadores precários devem ficar sem receber e terão dificuldades para adquirir comida e remédio levando a possíveis saques a farmácias e supermercados. Só neste tipo de trabalho, as forças de segurança estarão sobrecarregadas.

Soma-se a isso, o fato de que policiais serão chamados para resolver brigas e discussões em hospitais, mercados e farmácias. O stress causado pela doença tende a tirar as pessoas da razoabilidade. E isso vai gerar muitas ocorrências policiais de contenção de distúrbios. Há ainda a questão do sistema penitenciário. O que aconteceu em São Paulo, com rebeliões e fugas de presos, pode ocorrer com mais frequência. Há iniciativas sendo tomadas para liberar presos de baixa periculosidade e também de limitar as visitas. Mas, com o aumento da propagação do vírus, visitas terão que ser interrompidas e isso pode gerar muitas rebeliões e distúrbios onde as forças de segurança terão que atuar.

Existe um aumento de casos de todo tipo de estelionato ligado ao vírus. Venda de álcool gel falsificado, golpes de remédios que prometem a cura e por aí a fora. Estas ocorrências, ao serem notificadas, aumentarão o trabalho da polícia que terá muita dificuldade em dar vazão ao atendimento deste tipo de caso. E há, ainda, a questão do crime organizado. A diminuição da circulação de pessoas na rua levará a uma queda da venda de drogas. Com isso, o crime organizado buscará alternativas para seguir ganhando. É esperado que ele possa atuar mais fortemente em roubos e furtos de caixas eletrônicos e, ainda, nos assaltos a residências, joalheiras, cargas e outros locais onde haja possibilidade de auferir dinheiro. Isso fará com que as forças de segurança tenham que ser empenhadas também nestas ocorrências. Haverá, ainda, o aumento dos crimes interpessoais. Inúmeras pessoas convivendo sem sair as ruas dentro de casa tende a acarretar o aumento da violência doméstica e homicídios. Hoje, a logística de recolhimento de corpos é ainda bastante precária em todo o Brasil. Com o aumento das mortes causadas pelo vírus, haverá muita dificuldade para se coletar os corpos. Ester serviço precisa ser aprimorado urgentemente.

Como os membros das forças de segurança estarão nas ruas, a possibilidade de contaminação é verdadeira. Isso tem acontecido na Espanha, na Itália e na França. Ou seja, teremos um forte aumento da demanda pelas nossas forças de segurança ao mesmo tempo em que possa ser diminuído o efetivo. Diante de tudo isso, os comandos das polícias terão que priorizar a alocação do efetivo, de recursos materiais, escolhendo muito bem onde e como atuar. Já estão em curso preparativos e planejamentos para a atuação durante a pandemia. Considero, porém, que é preciso pensar no pior cenário.

Por fim, o ponto mais importante é que esta crise pode nos ajudar a melhorar a atuação das nossas forças de segurança. Talvez como poucas vezes em nossa história, iremos precisar da atuação social de nossas polícias. Isso acontece muito, mas é pouco divulgado. Este cenário pode ser uma chance de ouro para que a relação entre polícia e sociedade melhore. É preciso que as polícias percebam rapidamente que elas estão em uma missão humanitária, não na tradicional “guerra contra o crime”. Além disso, é uma chance para que seja utilizada tecnologia para deixar o atendimento e os processos da polícia mais rápidos e mais eficientes, principalmente no registro de ocorrências. Os efeitos da pandemia se comparam ao de Guerras Mundiais e grandes crises. Estamos diante do maior desafio de nossas vidas. Precisaremos de nossas forças de segurança para nos conduzir diante deste caos.

Aos membros das nossas forças de segurança, muito obrigado pelo trabalho de vocês. Precisamos estar todos juntos como nunca.

**Rafael Alcadipani, é professor do departamento de administração da FGV EAESP.

Fonte: estadao.com.br